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| Alair vive em Bombinhas. Ela diz que não sabia que a filha seria vendida para uma família de Israel Foto: Guto Kuerten / Agencia RBS |
Miri Oman Levran e Alair Machado foram separadas há 26 anos, quando ainda na maternidade, em Tijucas, o bebê foi levado por uma família israelense.
Agora, tentam se reaproximar, mas a possibilidade de um encontro assombra a jovem que hoje vive em Israel. Foi Miri quem buscou a aproximação, em agosto do ano passado, movida pelos mesmos desejos que movem e estimulam centenas de outros jovens na mesma situação: querem descobrir suas origens, contatar familiares biológicos, refazer a história adulterada nos anos 1980, em meio ao tráfico de recém-nascidos.
Com ajuda de voluntárias que buscam pessoas desaparecidas, Miri conseguiu o que seus colegas de adoção não tinham alcançado, ou seja, identificar a mãe. Parecia mais um dia na vida humilde de Alair, na pousada onde trabalha em Bombinhas, quando um recado no meio da tarde interrompeu sua rotina e mudaria radicalmente seus próximos meses.
– Elas queriam falar sobre Miriam Machado – relembra Alair, referindo-se às voluntárias Amanda Boldeke e Isaura Mandryk.
Miriam Machado é o nome que Alair deu à filha nascida em Tijucas, a 40 quilômetros de Florianópolis.
– Ela era linda. Pele clara, olhos verdes. Me lembro quando a enfermeira veio e a levou para o berçário. Foi a última vez que vi minha filha – lembra Alair, arrependida do que fez.
::: Em vídeo, mãe explica por que entregou a filha à adoção
– Elas queriam falar sobre Miriam Machado – relembra Alair, referindo-se às voluntárias Amanda Boldeke e Isaura Mandryk.
Miriam Machado é o nome que Alair deu à filha nascida em Tijucas, a 40 quilômetros de Florianópolis.
– Ela era linda. Pele clara, olhos verdes. Me lembro quando a enfermeira veio e a levou para o berçário. Foi a última vez que vi minha filha – lembra Alair, arrependida do que fez.
::: Em vídeo, mãe explica por que entregou a filha à adoção
Antes do parto, ela havia sido procurada por uma mulher loira, jovem e bonita se dizendo advogada. O que Alair não sabia era que a mulher tinha forte atuação entre as quadrilhas de traficantes de bebês da época. Quando foi ao cartório assinar a doação da filha, estranhou que uma certidão de nascimento estava redigida.
– Estranhei, mas não sabia o que fazer – conta.
A mãe envelheceu e a filha cresceu, mas ambas nutriram o desejo latente de se reencontrar. Miri, uma garota quieta e de fé inabalável, tomou a iniciativa. Quando soube que a Miri queria conhecê-la, Alair se animou e reabriu o coração cheio de esperança de ter a jovem mais próxima.
Desde então, tem sido um duplo sofrimento para as duas, que nunca conseguiram suturar a ferida aberta em 23 de março de 1986, quando a menina veio ao mundo. Em 2008, a garota esteve no Brasil à procura da mãe, mas não tinha um ponto de partida para localizá-la. De volta a Israel, conheceu pela internet o grupo de voluntárias, a quem pediu ajuda.
Neste ano, a garota localizou Alair em Santa Catarina. Por e-mail à nora de Alair, Miri falou da dificuldade de abordar a adoção e pediu informações de seu passado brasileiro. Com o auxílio de um tradutor do hebraico para o português, perguntou:
– Por que a Alair me entregou para adoção? Quem é o meu pai biológico?
– Estranhei, mas não sabia o que fazer – conta.
A mãe envelheceu e a filha cresceu, mas ambas nutriram o desejo latente de se reencontrar. Miri, uma garota quieta e de fé inabalável, tomou a iniciativa. Quando soube que a Miri queria conhecê-la, Alair se animou e reabriu o coração cheio de esperança de ter a jovem mais próxima.
Desde então, tem sido um duplo sofrimento para as duas, que nunca conseguiram suturar a ferida aberta em 23 de março de 1986, quando a menina veio ao mundo. Em 2008, a garota esteve no Brasil à procura da mãe, mas não tinha um ponto de partida para localizá-la. De volta a Israel, conheceu pela internet o grupo de voluntárias, a quem pediu ajuda.
Neste ano, a garota localizou Alair em Santa Catarina. Por e-mail à nora de Alair, Miri falou da dificuldade de abordar a adoção e pediu informações de seu passado brasileiro. Com o auxílio de um tradutor do hebraico para o português, perguntou:
– Por que a Alair me entregou para adoção? Quem é o meu pai biológico?
Inesperadamente, Miri recuou. Procurada pelo DC, a mãe fez questão de enviar uma mensagem gravada à filha, tentando explicar o ato desesperado do passado. Quando a reportagem esteve em Israel, Miri sumiu. Recados em sua página de Facebook, telefonemas, mensagens no correio eletrônico, de uma hora para a outra, deixou de responder. Chegou a marcar encontros, mas não apareceu. Por um amigo, pediu desculpas, alegando dúvida:
– Sem exame de DNA, não vou ter certeza. Peço desculpas por esse silêncio – comentou.
Há 10 dias, enviou a última mensagem a familiares de Alair, dizendo que, quando chegasse a hora, todos iriam saber. Com base em documentos localizados nos cartórios judiciais, o DC confirmou que se tratam de mãe e filha. No processo que envolve um dos principais líderes daquele tráfico constam os dados das duas.
Alair denunciou quadrilha depois de descobrir o golpe
Alair foi uma das mães que denunciaram o tráfico em seu depoimento registrado no processo, no qual conta como foi iludida a doar a filha. Alair está disposta a se submeter a exames para comprovar a maternidade. Vê nos traços da garota uma cópia dos seus quando jovem.
– Sem exame de DNA, não vou ter certeza. Peço desculpas por esse silêncio – comentou.
Há 10 dias, enviou a última mensagem a familiares de Alair, dizendo que, quando chegasse a hora, todos iriam saber. Com base em documentos localizados nos cartórios judiciais, o DC confirmou que se tratam de mãe e filha. No processo que envolve um dos principais líderes daquele tráfico constam os dados das duas.
Alair denunciou quadrilha depois de descobrir o golpe
Alair foi uma das mães que denunciaram o tráfico em seu depoimento registrado no processo, no qual conta como foi iludida a doar a filha. Alair está disposta a se submeter a exames para comprovar a maternidade. Vê nos traços da garota uma cópia dos seus quando jovem.
Ao ser informada de que o DC viajaria a Jerusalém, Alair fez questão de enviar material de coleta de amostras para exame de DNA. Alair lembra que trabalhava em Meia Praia, em Itapema, quando engravidou. Ciente das dificuldades que ela teria para criar a criança que viria ao mundo, um taxista da região apontou à grávida a existência de uma advogada que poderia encaminhar a criança a um casal de Balneário Camboriú, em boa situação financeira, que daria um futuro melhor ao bebê.
Taxistas foram elos na cadeia do tráfico, pois indicavam grávidas e transportavam intermediários e casais entre Santa Catarina e Paraná, alvos principais das quadrilhas.
Sem dinheiro, cedeu ao assédio da aliciadora, conta hoje, em casa, ao lado do marido, sempre a exibir álbuns, numa tentativa de comprovar que faltam as fotos da filha. Ela namorava havia dois anos quando engravidou de Miri, e o pai caiu fora. Os pais de Alair não aceitavam a gravidez e não queriam mais uma criança em casa.
A explicação dos pais dela parecia fazer sentido: eles já criavam o outro filho de Alair, que também é adotada. Meses depois, quando a Polícia Federal começou a desbaratar as quadrilhas, Alair entrou em desespero e tentou recuperar a filha. Prestou depoimento à PF e ajudou a colocar quadrilheiros na cadeia. Envergonhada do assunto que virou o principal do país, enfrentou o julgamento de vizinhos.
– Foi um pesadelo que eu gostaria de esquecer – diz, como se possível fosse.
A razão de Miri de interromper o desejo de conhecer a mãe, no entanto, pode estar no ventre, que cresce com o início de sua gravidez. Abandonada em Santa Catarina, agora vai ser mãe em Israel. E pretende dedicar todo seu tempo e energia para o bebê que virá ao mundo.
Taxistas foram elos na cadeia do tráfico, pois indicavam grávidas e transportavam intermediários e casais entre Santa Catarina e Paraná, alvos principais das quadrilhas.
Sem dinheiro, cedeu ao assédio da aliciadora, conta hoje, em casa, ao lado do marido, sempre a exibir álbuns, numa tentativa de comprovar que faltam as fotos da filha. Ela namorava havia dois anos quando engravidou de Miri, e o pai caiu fora. Os pais de Alair não aceitavam a gravidez e não queriam mais uma criança em casa.
A explicação dos pais dela parecia fazer sentido: eles já criavam o outro filho de Alair, que também é adotada. Meses depois, quando a Polícia Federal começou a desbaratar as quadrilhas, Alair entrou em desespero e tentou recuperar a filha. Prestou depoimento à PF e ajudou a colocar quadrilheiros na cadeia. Envergonhada do assunto que virou o principal do país, enfrentou o julgamento de vizinhos.
– Foi um pesadelo que eu gostaria de esquecer – diz, como se possível fosse.
A razão de Miri de interromper o desejo de conhecer a mãe, no entanto, pode estar no ventre, que cresce com o início de sua gravidez. Abandonada em Santa Catarina, agora vai ser mãe em Israel. E pretende dedicar todo seu tempo e energia para o bebê que virá ao mundo.
Mônica Foltran, enviada especial/Israel, monica.foltran@horasc.com.br
Diariocatarinense.clicrbs.com.br

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